Marcha das Mulheres Negras em São Paulo: Pelo Fim da Negligência e Violência do Estado! Homenagem do INSPIR às Mulheres Negras! “Mercado de trabalho desperdiça oportunidade por não dar as mesmas possibilidades para trabalhadores negros”, diz especialista Publicação INSPIR: 'A Negociação Coletiva de Cláusulas Relativas à Equidade Racial no Brasil' Racismo Faz Mal à Saude. Denuncie, Ligue 136! Campanha do INSPIR, ISP, CSA e SC-AFL-CIO para ratificação das Convenções A-68 e A-69 da OEA

DERROTAMOS ALI KAMEL?

20/03/2013
“A maior artimanha do diabo foi a de convencer o mundo de que ele não existe”

O projeto de branqueamento da nação brasileira, construído ao longo do século XIX, que tem na “democracia racial” a sua manifestação ideológica mais visível, atingiu níveis de sofisticação tais no século XXI que consegue passar despercebido. O plano das elites do Sudeste, que protagonizaram a transição para a República e o capitalismo, oferecia e oferece duas opções aos descendentes de escravizados: a marginalização econômica, social e política, ou a inclusão subalternizada, ocupando os extratos da base da pirâmide social, com negação da herança cultural, formas de sociabilidade e até da sua estética corporal.

O controle, através dos instrumentos de repressão, não é a única maneira de manutenção do poder político e econômico pelas oligarquias, evidentemente minoritárias, em detrimento da maioria negra, indígena e mestiça que compõe a nação. A disseminação da ideologia das classes dominantes tem sido fundamental para manutenção desse poder como, de resto, é prática corriqueira das elites em todas as sociedades baseadas na exploração de uma classe sobre a outra.

A maneira como os instrumentos de dominação ideológica são operados no Brasil, todavia, guarda uma singularidade que a torna campeã em eficiência, apresentando excelentes resultados para os projetos dos poderosos. Primeiramente se criminaliza e desqualifica as manifestações culturais, padrões estéticos e formas de sociabilidade dos descendentes de africanos. Em um segundo momento, como reação às resistências, as elites parecem ceder, mas na verdade se apropriam dessas manifestações, alterando seu significado, pasteurizando e rebaixando seu papel social e político, transformando as mesmas manifestações culturais em instrumento de dominação. A transmutação do samba marginal em “samba exaltação” pelo Estado Novo, e a oficialização dos reiteradamente perseguidos entrudos, batuques e “cateretês”, que viraram a milionária festa do carnaval, são dois dentre inúmeros exemplos.

Do ponto de vista estético, existe o padrão de beleza europeu, que classifica e generaliza todo homem ou mulher negros como exemplos de feiura. Por outro lado, há a exacerbação de certos aspectos do corpo das mulheres negras (que em decorrência da miscigenação carregam características de ambas as etnias), atendendo aos objetivos de comercialização da sua sexualidade. Transformadas em “mulatas” e impostas ao imaginário popular como naturalmente lascivas, insaciáveis e disponíveis, são apresentadas dessa maneira há décadas. A figura da “Mulata Assanhada” de Ataulfo Alves, nos anos 50, as personagens femininas de Jorge Amado, as “mulatas que não estão no mapa” do arquigigolô Sargentelli, das décadas de 60 e 70, a novela que carregava o explícito título de “Da cor do pecado”, têm sua versão atual na figura síntese da “Globeleza”. O estereótipo é reforçado diariamente na TV, onde raramente a mulher negra é retratada como esposa, mãe, filha ou irmã, apresentando-a sempre como “produto” a ser consumido e descartado. A televisão tornou-se, assim, o principal e insubstituível instrumento de veiculação da cultura sequestrada e deturpada e da banalização do corpo da mulher negra.

Em uma aparente mudança radical de comportamento, o mais importante conglomerado de comunicação do País – a Rede Globo – estreou em 2012 duas novelas protagonizadas por atores negros (Lado a Lado e Subúrbia), veicula outra que tem a figura de Ogum como o fio condutor (Salve Jorge), e voltou a exibir programa de auditório dirigido por uma atriz que foge ao usual padrão anglo-saxônico das nossas estrelas (Esquenta), com presença ostensiva de negros e de manifestações culturais das periferias. Será que o movimento negro, enfim, foi vitorioso em suas históricas cobranças para a grande mídia deixar de ser racista, dando visibilidade aos 52% de afrodescendentes que compõem a população brasileira? Será que o grande ideólogo do racismo militante da Globo, o diretor Ali Kamel, autor da obra-prima do cinismo pátrio, “Não somos racistas”, foi finalmente derrotado?

Sem sombra de dúvidas, todo ativista da luta antitracismo se sente vitorioso por ver que, finalmente, passamos a ocupar um lugar na mídia que se aproxima da nossa presença na sociedade, do nosso papel na história do Brasil e da contribuição cultural herdada da África. Contudo, precisamos ficar atentos porque a histórica forma de mascarar e perpetuar o racismo no Brasil é negá-lo, incorporando aspectos da cultura negra, devidamente compartimentalizados, pasteurizados e “civilizados”.

Parece-nos evidente que uma das principais razões da mudança de comportamento da Globo é o desejo de conquistar o mercado de mais de 40 milhões de pessoas que ascenderam social e economicamente na última década, do qual 80% composto de negros. Para além do pragmatismo econômico, todavia, aquele canal de televisão, principal instrumento de manipulação ideológica das velhas oligarquias, protagoniza a disputa pelos corações e mentes desse “novo” grupo social. Para tanto, permite que ele se veja representado na novela de época, que aborda corretamente sua história, na produção cultural e no programa de auditório. O reforço dos velhos estigmas faz parte da estratégia. É importante que nossa presença na sociedade seja reduzida às ocupações de cantores, dançarinos e atores, via de regra apresentados de maneira infantilizada, exageradamente alegres e sensuais.

O que a Globo está fazendo não tem o ineditismo que aparenta. É apenas mais uma ação dos mesmos grupos sociais que criaram a ideia de “democracia racial”, queimaram os documentos relativos à escravidão para “apagar a mancha negra da nossa história”, promoveram e promovem a “inclusão” individual dos “mais talentosos” como forma de mascarar e justificar a exclusão coletiva que se mantém, a despeito dos inegáveis avanços da última década.

A maior artimanha da Globo é tentar nos convencer que faz parte do passado a sociedade onde a cor da pele era decisiva para determinar se alguém teria trabalho ou estava condenado ao desemprego, poderia estudar ou tinha a ignorância como sina, viveria até a velhice ou estava predestinado a morrer com menos de 30 anos. Não nos deixemos enganar. Ali Kamel está vivo e atuante. Não quer apenas nosso dinheiro, precisa de nossos corações, nossa mentes e nossas almas.

Ramatis Jacino
Presidente do INSPIR

comentrios esto fechados.